domingo, 27 de fevereiro de 2011
saudade por Clarice Lispector
Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...
Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...
Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...
Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro...
Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...
Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.
Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!
Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!
Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!
Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.
Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...
Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!
Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!
Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,
Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.
Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que...
não sei onde...
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...
Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês...
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.
Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados...
para contar dinheiro... fazer amor...
declarar sentimentos fortes...
seja lá em que lugar do mundo estejamos.
Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.
Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.
E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.
Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência...
(CLARICE LISPECTOR)
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Pai Chão.
Interessante como os temas relacionados à afetividade e sexualidade sempre foi e é tão presente na vida dos habitantes no mundo todo.
A relação de afeto entre duas ou mais pessoas envolve tantas peculiaridades e perpassa tantos conceitos e delimitações que chega a me interessar estudar profundamente esta colcha de enigmas que rodeiam os corações.
A que mais me fascina e inebria é a relação de paixão o todo e qualquer estímulo que nasce a partir dela.
É.....
A paixão é culpada pelos ápices de bondade e maldade, pelos impulsos e atitudes desenfreadas, pelos surtos e delírios, os devaneios e divagações, o sorriso e o choro exacerbado, a solidão e habitação infinita de vários seres, pelo grito e silêncio sofrido, e por vários pequenos detalhes que vão de uma ponta à outra...
A paixão se fragmenta e se perfaz em tantas situações que seriam tema para muitas outras edições do seriado tão aclamado "Sex and City". Carrie, você ainda tem muito o que escrever se for observar e pesquisar as relações no Brasil, ainda mais nos últimos 10 anos.
No problem.
Talvez eu me proponha a inserir no blog algumas questões bem marcadas sobre este assunto.
[I promess]
Fica a Introdução!
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Dalí.
Visitou-me ontem de madrugada e deixou ao lado da minha cama uma mensagem, uma foto e um perfume.
Refletia em sua tez aflição e medo. Algo nos conectava, chamava-o para mim, junto àquela senhora que lhe tem cuidados fraternos....ela sorria, saudosista e ele....apenas me olhava com olhar de saudades inexplicáveis, mas que desejava sair correndo daquele momento imediatamente.
No sonho faziam-lhe perguntas, as quais ele não sabia responder. Ele não podia.
Acordei com a sensação de sentir seu cheiro, de ver seu sorriso tímido e ainda sentir um abraço.
Restou as imagens como em fotos, o desejo e o cheiro misterioso.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Andarilho
No lugar onde vive estes casos há sempre alguém que está entre o vilarejo e a estrada de chão batido. Um deles habita aqui, nesta cidade. Anda, corre, dança e hiberna. Vai e volta, lembra que ainda pertence àquele lugar.
Quando imaginamos que ele se foi, que tirou sua nacionalidade em outro país beeeeeeem distante, lá está ele, ainda segurando as malas, o guarda-chuva e o cantil de água. Aparentemente causa murmurações entre a vizinhança que insiste em querer abordá-lo, e quando há a mínima oportunidade, ele se afasta. Medo? Insegurança? Talvez sentindo algo recíproco...Ninguém sabe.
O que dizem é que ele mora em um lugar que não tem localização. Existe é claro, mas não se sabe onde. é como que flutuasse como fluido transparente não palpável, mas com muitos estímulos de reminiscência e cores realçantes entre o branco, cinza, preto e por vezes [dolorosamente] vermelho.
Está ali na brecha, na falha da madeira fresca, no eco do pássaros em bando com se distanciam, no açúcar no fundo do copo, no intervalo das batidas do coração, no toque de um galho roçando no outro, no piscar dos olhos, na espera da chamada ao telefone, no meio do laço da fita, no ponteiro dos segundos, no intervalo entre o sinal verde e o vermelho.
A crença agora é na inexatidão que há no lugar em que ele ocupa e no efeito ao certo que ele causa na vizinhança. Tudo é incerto, mas as vezes intenso como a lógica da matemática. Dialeticamente incompreensível.Cansei de entender. E antes mesmo, de viver isso. Hoje aprendi a conviver com os picos e com as idas e vindas deste viajante.
Todavia, uma coisa é certa: Não troco minha casa segura, quente e aconchegante por uma trilha empoeirada, sem rumo e sem sentido.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
O amor e outras drogas
O filme mal estreou e já sinto a sensação de ter me drogado logo que vi o título.
O roteiro compara o universo das drogas medicamentosas e entrelaça o enredo com a "droga" que pode vir a ser o amor. Uma jovem com Parkinson e um representante de remédios apaixonam-se e o que começou com o vício do sexo, por medo de amar, termina no vício pelo amor e pela luta de um futuro a dois.
Lembrei de épocas da adolescência na qual os primeiros sintomas de paixão gerava efeitos colaterais físicos e muitas das vezes tomava remédio para passar a dor de barriga, a dor de cabeça, as mãos frias e nervosas, a garganta seca e sem fala....
É....
Os tempos talvez não tenham mudado, talvez as drogas tenham se multiplicado e consumido cada vez mais toda e qualquer pessoa, independente de idade, gênero, cor e raça....
Todos nós amamos, todos nós nos drogamos de amor.
Assinar:
Comentários (Atom)





